22.10.2008

[12:15:26]

DILATANDO AS FRONTEIRAS DE NOSSA MORAL SEXUAL

familias-alter.jpg

A questão homossexual nunca foi tão discutida como vem sendo nos últimos anos. Por um lado, a pós-modernidade transformou o que se considerava a realidade única, a verdade científica numa colcha de retalhos onde a diversidade pode ter lugar. Nesta mescla entre o inovador e o tradicional, atravessamos um tempo de incertezas e momentos de maior ou menor rigidez nos padrões socialmente aceitos. Por outro lado, o advento da AIDS e sua associação, no início da epidemia às atividades homossexuais, trouxe luz aos debates sobre o tema.

Uma das questões mais polêmicas é a que opõe os conceitos de “opção sexual” (ou preferência) a “orientação sexual”. Tal oposição traz à baila a velha discussão entre Natureza e Cultura. De um lado a crença de que alguém nasce homossexual, determinado pela genética ou algo similar, sem poder escolher. De outro lado a crença de que ser homossexual é uma opção, que é possível escolher e assim as pessoas escolheriam relacionar-se com outras do mesmo sexo.

Parece ser consenso para a população em geral que o fato de não ser uma escolha confere legitimidade à homossexualidade. Aqueles que falam a favor dela alegam que não é possível escolher. Assim sendo, ser homossexual eqüivaleria a ser canhoto. Já aqueles que falam contra a homossexualidade afirmam que é uma escolha.

Na esteira deste grupo, surgem os tratamentos para conversão tanto de cunho religioso como de cunho “técnico”. Estes podem ser de toda sorte, destacando-se os psiquiátricos e os psicológicos, apesar de resolução do Conselho Federal de Psicologia de março de 1999 que estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da orientação sexual.

Vera Wisman faz algumas objeções a esta discussão. A mais poderosa delas é a seguinte: se a homossexualidade se legitima apenas através do fato dela não ser uma escolha, estaremos caindo na mais enganosa suposição de que seria desejável ou necessário mudar de lado. A diferença entre ser um doente, desviante e ser um pecador.

Gostaria de colocar aqui uma outra objeção a este tipo de legitimação: a oposição entre natureza e cultura é uma construção cultural. Com isso quero dizer que esta oposição é também ela uma invenção historicamente datada sendo portanto completamente arbitrária.

O historiador Jeffey Weeks afirma que a sexualidade tem base nas possibilidades do corpo mas o sentido e o peso que lhe atribuímos são modelados em situações sociais concretas. Assim, antes de pensar o corpo e a sexualidade como tendo atributos universais e invariáveis, devemos pensá-los como tendo sentido e significado próprios em cada sociedade em determinado momento.

Até meados do século 19 o relacionamento sexual entre pessoas do mesmo sexo era visto como uma atividade potencial para qualquer pessoa. Em 1869 o escritor austro-húngaro Karl Kertbeny usou pela primeira vez os termos “homossexual” e “heterossexual”, definindo o primeiro como tendo um “comportamento variante benigno” do segundo.

Com o passar do tempo, os termos foram sendo usados para distinguir o normal do anormal. No começo do século 20 estes termos já tinham significados opostos, de modo que hoje acreditamos que existem indivíduos heterossexuais e homossexuais sendo que aqueles que não se encaixam muito bem a estes padrões são chamados de bissexuais.

O mais complicado disso tudo é que tal divisão não é observada em todas as culturas humanas e ela só existe há pouco mais de 130 anos!!

As pesquisas e escritos dos últimos 50 anos nos permitem afirmar que em se tratando de sexualidade existe tanta variabilidade e possibilidade quanto existem pessoas, ou seja, cada indivíduo faz sua própria construção mediada por sua história pessoal, suas experiências, o contexto mais amplo onde vive e o momento histórico e social.

Hoje em dia o termo “família” abrange um grande número de arranjos. A tradicional família burguesa que, desde sua invenção, reinou absoluta até meados dos anos 50 composta por pai, mãe e filhos está cada vez mais difícil de ser encontrada. Em seu grande guarda-chuva, o termo hoje engloba pais com filhos e mães com filhos, que podem ser solteiros, viúvos, separados que podem se recasar e incluir filhos de novos companheiros etc. Nesta esteira, as auto denominadas “famílias alternativas” começam a ocupar espaço e colocar em cheque a opinião pública.

Acredito que o adjetivo “alternativas” não seja adequado para definir estas famílias. Elas são formadas como qualquer família: por pessoas sozinhas ou casais com crianças adotadas, filhas de um relacionamento anterior de um dos cônjuges ou em parceria com um amigo ou amiga ou mesmo fruto de inseminação artificial.

O maior conflito que tenho assistido assolar estas famílias refere-se a “como” contar aos filhos sobre ser homossexual. Muitos pais são felizes afetivamente, lidam abertamente com a questão em seus relacionamentos sociais mas têm dificuldades quanto a falar com os filhos. É curioso notar que o temor vai desde “não ser aceito” pela criança até o preconceito que ela irá sofrer nas relações sociais.

Em que pese a maior aceitação social dos homossexuais, as famílias por eles constituídas ainda sofrem com as grandes limitações a elas impostas. Há anos tramita no Congresso Nacional a Lei de Parceria Civil entre pessoas do mesmo sexo, de autoria da então Deputada Marta Suplicy, enquanto inúmeras pessoas que perdem o/a companheiro/a são obrigadas a lutar na justiça pelo patrimônio construído pelo casal.

Outro preconceito extremamente arraigado é quanto a crianças nestas famílias. Os críticos alegam que os filhos ficarão confusos quanto a “quem é o pai, quem é a mãe” e “como isto certamente lhes trará prejuízos”. O que dizer sobre as famílias constituídas por um pai gay e um filho? Toda a sorte de fantasias perversas assola os mais conservadores! E o pior de tudo: como lidar com uma família onde o filho é fruto de uma relação sexual negociada onde uma das parceiras de um casal lésbico se relaciona com fins procriativos com um amigo gay ou vice-versa? “Pobrezinha da criança”, dizem eles!

No entanto, não é isto o que se vem observando. É claro que qualquer destas hipóteses pode vir a se tornar uma situação problema. Casais heterossexuais socialmente adaptados geram filhos com graves problemas das mais diversas gamas. No entanto afirmar que a priori estas crianças serão problemáticas ou enfrentarão problemas em seu desenvolvimento é uma afirmação que tem bases profundamente homofóbicas.

Neste aspecto, tomo emprestadas as palavras de Jurandir Freire Costa: “a geração ‘papai-mamãe’ criou o nazismo, o terror stalinista, os preconceitos sexuais, a inferioridade feminina, o racismo e outras pérolas humanas conhecidas de todos. Não creio que dilatando as fronteiras de nossa moral sexual, para incluirmos práticas amorosas não-majoritárias, venhamos a perder o sentido do que é ético e do que é bom para as futuras gerações”.

Quanto aos críticos, resta-nos evocar o psiquiatra e antropólogo Adalberto Barreto: “Só reconheço no outro aquilo que conheço em mim”.

Uma das saídas que estas famílias têm encontrado é a constituição de grupos organizados para discussão e reforço de suas identidades. A perspectiva de uma organização social lésbica e gay abre cada vez mais a possibilidade de escolha de um modo de vida, dando às pessoas a chance de viver intensamente suas necessidades e desejos. Além disso, a organização social propicia uma sensação de segurança, de reforço da auto-estima e de maior contato com os próprios sentimentos.

Alguns casos de grande repercussão na mídia têm ajudado a desmistificar estes grupos. Entre eles o de Maria Eugênia e Chicão, filho de Cássia Eller, pode ser citado como exemplo.

Uma questão de extrema importância neste contexto surge quando, como profissionais, no consultório ou na instituição, recebemos uma dita “família alternativa”. Muitos profissionais, e isto é inegável, ainda não estão confortáveis para lidar com tal situação.

Para compreendermos a sexualidade em toda a sua complexidade é necessário deixar de reduzi-la a categorias que encerram “grandes verdades”. A antropóloga Carole Vance nos faz a pergunta: “Homossexualidade, que homossexualidade?” Aquilo que é óbvio precisa parecer óbvio. Categorias não são suficientes para dar conta das complexas relações humanas e é necessário conhecê-las a fundo para que pessoas que amam pessoas do mesmo sexo possam ter reconhecimento cultural, aceitação social, e proteção legal numa sociedade mais justa, tolerante com as diferenças e igualitária.

.
Casais e famílias homossexuais: o desafio pós-moderno

Texto de Sandra Regina Pessoa de Meneses,
psicóloga, terapeuta individual, de casal e de família
CRP 06/35901-3

Postado por BF.

03.10.2008

[12:59:20]

DIVERSIDADE SEXUAL E OS NOVOS PARADIGMAS SOCIAIS

balance1.jpg

III Semana da Diversidade Sexual da Escola de Comunicação da UFRJ

“Diversidade sexual e os novos paradigmas sociais” é tema que atravessará os debates entre estudiosos, acadêmicos, lideranças e formadores de opinião na III Semana da Diversidade Sexual, realizada pelo Programa de Educação Tutorial da Escola de Comunicação da UFRJ. O evento será realizado nos dias 06, 07 e 08 de outubro de 2008, sempre das 14 h às 17 h, no Fórum de Ciência e Cultura do Campus da Praia Vermelha.


Mesmo numa sociedade em que a mídia parece ter ampla liberdade para falar de absolutamente tudo, o tema diversidade sexual continua sendo tratado como tabu. O conservadorismo, o pudor e principalmente a estigmatização que atravessam os discursos mais comuns sobre o assunto são exatamente aquilo que a Semana da Diversidade Sexual, agora em sua terceira versão, vem tentando transpor, com debates e discussões abertos sobre o tema. A desconstrução de estereótipos e imagens pré-estabelecidas pelo senso comum, além do olhar sobre a identidade que o discurso da diversidade sexual pode assumir daqui para frente, serão preocupações dos participantes do evento.

A tendência hoje é que a sociedade ocidental abandone as formas caricatas com que são representados os sexualmente diversos – gays, transexuais, praticantes de swing, prostitutas etc. – no imaginário popular. Portanto, o contraponto entre o discurso hegemônico propagador de estereótipos e a fala das pessoas representadas por eles é necessário. Mostrar diversos pontos de vista sobre o tema é uma das preocupações dos organizadores, que convidaram nomes como Cláudio Nascimento, coordenador-geral da Parada do Orgulho LGBT do Rio de Janeiro; Pedro Paulo Bicalho, vice-presidente do Conselho Regional de Psicologia da 5ª região; e Cristina Câmara, que atualmente desenvolve consultorias, por exemplo, para o Programa Nacional de DST/ AIDS do Ministério da Saúde. Dessa forma, o evento espera promover debates ricos em opiniões e pontos de vista.

A multiplicidade de alternativas e comportamentos sexuais e a pluralidade de vozes se mostram essenciais para que o discurso conservador naturalizado pela própria mídia não resulte como dominante, podendo ser contestado à medida que o conhecimento relativo a essa problemática seja compartilhado pela população. Contaremos com palestras e mesas redondas nas quais serão abordados assuntos de interesse da área de comunicação e de qualquer outra que se proponha a discutir as novas tendências sociais, sempre permeados pelo grande tema “diversidade sexual e novos paradigmas sociais”.

A III Semana da Diversidade Sexual da ECO/UFRJ foi levada à frente pelas mãos de Diego Cotta, Gustavo Barreto e Renata Saavedra, que coordenam a equipe de organização: Manuela Andreoni, Guilherme Romeo Tomaz e Tainá Revelles Vital.

A III Semana da Diversidade Sexual da ECO/UFRJ é uma realização do PET/ECO e conta com o patrocínio do Banco do Brasil e da Fundação Universitária José Bonifácio (FUJB) e com o apoio da Escola de Comunicação da UFRJ (ECO/UFRJ), do Fórum de Ciência e cultura, do Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT e do site Em Dia com A Cidadania.

INSCRIÇÕES

As inscrições para a III Semana da Diversidade Sexual da UFRJ estarão abertas a partir do dia 19/09/2008 até o dia 05 de outubro de 2008. A inscrição será feita, neste período, exclusivamente por meio do email.

O Auditório Muniz Aragão, local do evento, tem a limitação de 100 lugares. O evento emitirá certificado de participação para aqueles que comparecerem a pelo menos dois dias de evento.

Para se inscrever, basta enviar um email para diversidadesexual@gmail.com com os seguintes dados:

1. Nome
2. Telefone
3. Email
4. Instituição/curso
5. Ocupação

PROGRAMAÇÃO

No primeiro dia, “Educação e Cultura: novos olhares” será o tema para as discussões relativas às políticas de formação da sociedade brasileira em suas diversas instâncias. As perspectivas e os paradigmas culturais serão analisados segundo a visão de antropólogos, sociólogos, pedagogos, educadores, gestores públicos e outros especialistas, com a contribuição igualmente importante de membros do movimento social LGBT.

No segundo dia, “A identidade de gênero e orientação sexual dentro da Saúde Pública” versará sobre as políticas adotadas no campo da saúde e os estigmas e conceitos que referenciam tais diretrizes.

No terceiro dia, o tema “Políticas Públicas” domina a primeira parte do debate. A segunda parte é reservada ao que chamaremos por hora de “I Fórum de Política de Inclusão Sexual e Identidade de Gênero da UFRJ”, com a tomada de decisões quanto ao funcionamento de uma estrutura de debates e orientações sobre este tema no âmbito da UFRJ.

MAIS INFORMAÇÕES

III Semana da Diversidade Sexual da Escola de Comunicação da UFRJ
Data: 06, 07 e 08 de outubro
Local: Fórum de Ciência e Cultura – campus da Praia Vermelha, UFRJ
Site: http://www.eco.ufrj.br/diversidade

.

Fonte: http://www.consciencia.net

Postado por BF.

27.09.2008

[12:44:05]

CAMPANHA CIDADANIA DIGITAL

noahomofobia-campanha.jpg

O site www.naohomofobia.com.br, que tem como principal plataforma de seu lançamento a 13ª Parada do Orgulho LGBT-Rio 2008, pretende, com a estratégia de sua Campanha, ser uma poderosa ferramenta de divulgação, pressão e mobilização social, pela aprovação do PLC 122/06. O projeto já foi aprovado na Câmara dos Deputados e aguarda votação no Senado Federal.

A proposta do site é a de ser um espaço democrático, que disponibiliza o conteúdo da Lei, defensores da causa no Senado, a polêmica em torno do debate e o principal: contar com o seu posicionamento, em um abaixo-assinado online, por meio do qual você poderá demonstrar seu apoio à criminalização da homofobia. Este abaixo-assinado a favor da aprovação do PLC 122/2006 será automaticamente enviado aos 81 senadores, com cópia para os 513 deputados federais, para o presidente da República e seus ministros, além do presidente do Supremo Tribunal Federal e do presidente do Superior Tribunal de Justiça.

É muito simples participar. Você preenche na Votação Online o seu nome, e-mail e RG ou CPF para validar a sua mensagem. Neste momento, você pode optar pelo registro de suas informações no banco de dados do Grupo Arco-Íris. O registro dessas informações será uma importante arma, para comprovar e divulgar aos senadores o número de pessoas que são favoráveis à lei.

A meta, além de esclarecer e desfazer boatos, é arrecadar mais de 1 milhão de assinaturas eletrônicas. A iniciativa inaugura, ainda, uma fase inédita de adesão da sociedade, utilizando a mídia mais democrática da história – a internet.

O www.naohomofobia.com.br tem o intuito de ser um grande propagador de assuntos que envolvem a questão da homofobia no Brasil e um aliado na conquista dos direitos de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, além de forte instrumento de visibilidade e mobilização social no enfrentamento da homofobia no Brasil. Participe! Dê seu voto para dar um basta à homofobia no Brasil!

Postado por BF.